espelhos


 

Marisa, em janeiro de 2004.

O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.

Cora Coralina

 



Escrito por bruxa aprendiz às 17h00
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Um outro olhar

Por Moacyr Moreira

Hoje fui trabalhar de ônibus. Costumo usar o carro e por problemas mecânicos inesperados fui obrigado a acordar mais cedo e utilizar-me da rede coletiva de transporte.

Logo ao descer a rua, percebi uma série de construções nas quais nunca havia reparado. Uma casa bonita, uma loja de materiais para manutenção de piscinas (não é um bairro com tantas piscinas assim, pensei), um pequeno café bastante simpático. Nunca havia passado por ali de carro, muito menos a pé.

O ar fresco da manhã me fez muito bem, apesar de já haver muitos veículos pesados despejando seus monóxidos. Uma sensação estranha: como nesse horário estou sempre motorizado, foi como se os papéis se invertessem: aqueles pedestres que costumam caminhar pelo trajeto, hoje dividiam as calçadas e faixas comigo. Um motorista mais afoito fez-me entender que muitas vezes pude ter sido também rude com os passantes. O estranhamento permaneceu, como se, diariamente, visitasse o Simba Safari, dentro do carro fechado e protegido por grades e hoje estivesse do lado de fora, livre, com toda liberdade de expressão e pensamento. Tudo é diferente na rua em relação ao interior da cabine do carro: a temperatura, a umidade relativa do ar, os aromas e sopros de brisa ou vento forte.

Cheguei ao ponto de ônibus. Sentei-me em pouco e logo apontou um que me servia. O caminho é quase o mesmo do carro, as mesmas avenidas, e o percurso de aproximados 20 minutos se faz também de ônibus. O milagre, numa cidade como São Paulo, pode ser explicado pelo dito contra-fluxo. Enquanto rumo para o trabalho, pela manhã, multidões de carros percorrem o sentido inverso, o mesmo acontecendo no final da tarde. Por isso também, o ônibus não estava apinhado. Foi possível ler, mesmo de pé, e observar os arredores pelas janelas que não estavam obstruídas pelo número inacreditável de pessoas que conseguem se aglomerar dentro de um coletivo no horário de maior movimento.

Mesmo tratando-se do trajeto que percorro todos os dias, muitas coisas pareciam diferentes. Em alguns outdoors e estabelecimentos, confesso, nunca tinha prestado atenção. Lembrei-me de uma cena do filme Sociedade dos poetas mortos, em que o professor sobe na mesa da sala de aula e pede que os alunos façam o mesmo, um a um. Pede que assim, observem o mundo por um novo outro ponto de vista, analisem a realidade de um outro ângulo.

E eu estava ali, indo trabalhar, vislumbrando os aspectos particulares e novos de um caminho que eu julgava conhecer de cor. Cheguei cedo, muito alerta, como se tivesse saído de casa muitas horas antes: bem humorado, enriquecido com a experiência sensorial que acabara de vivenciar. E o dia se fez maior, menos cansativo, mais suave.

Olhar o mundo por outra perspectiva nos revela sempre que há sempre um outro lado, uma outra interpretação. Um outro olhar.

 



Escrito por bruxa aprendiz às 18h50
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A beleza

(Kahlil Gibran)

Onde vocês buscarão a beleza, e como poderão encontrá-la a menos que ela mesma seja o caminho e o guia?
E como falarão dela, senão que ela mesma teça seu discurso?
...
Os aflitos e maltratados dizem: "a beleza é bondosa e meiga.
Como a mãe um tanto tímida diante da própria glória, ela caminha entre nós."
E dizem os passionais: "nada disso! A beleza é poderosa e terrível.
Como a tempestade, sacode a terra sob nossos pés e o céu que nos cobre."
Os exaustos e desgastados dizem: "a beleza é feita de suaves sussurros, e fala em nosso espírito.
Sua voz cede aos nossos silêncios como a luz débil treme de medo da sombra."
Mas os inquietos dizem: "nós a temos ouvido bradar entre as montanhas,
E acompanham seus clamores o estrépito de cascos, o bater das asas e o rugir dos leões."
...
À noite as sentinelas da cidade dizem: "A beleza virá do leste com a aurora"
E ao meio-dia, os caminhantes e trabalhadores dizem: "Nós a vemos inclinar-se sobre a terra das janelas do pôr-do-sol."
...
No inverno dizem as pessoas sitiadas pela neve: "Ela virá com a primavera, saltando sobre os morros."
E no calor do verão, dizem os ceifeiros: "nós a vimos dançar entre as folhas de outono, e seus cabelos traziam flocos de neve."
Todas essas coisas vocês tem dito da beleza,
E na verdade, porém, não falaram dela, mas das próprias necessidades insatisfeitas,
E a beleza não é necessidade, mas êxtase.
Não é a boca sedenta, nem a mão estendida, suplicante,
Mas sim um coração ardente e uma alma enlevada.
Não é a imagem que vocês gostariam de ver, nem a canção que desejariam ouvir,
Mas antes uma imagem que vêem mesmo de olhos fechados, e uma canção que ouvem mesmo de ouvidos tapados.
Não é seiva dentro da casca sulcada da árvore, nem asa presa a uma garra,
Mas sim um jardim para sempre florido, e uma nuvem de anjos a voar eternamente.
...
Povo de Orphalese, a beleza é a própria vida quando a vida desvela sua face sagrada.
Mas vocês são a vida e o véu.
A beleza é a eternidade mirando-se num espelho.
Mas vocês são a eternidade, e também o espelho.
 


Escrito por bruxa aprendiz às 18h59
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