Eu estava com 6 anos e fazia o primeiro ano do curso primário. Já sabia ler e escrever um pouco e aquele dia seria especial. Teríamos aula de desenho e eu ia usar a caixa de lápis de cor e o caderno sem pautas, próprio para desenho, com aquelas entrefolhas de papel de seda que eu tanto admirava.
Depois do recreio a professora distribuiu os cadernos encapados em vermelho com as etiquetas de identificação. Começava o ritual mágico. Em seguida ela proferiu as palavras que abriam o portal da imaginação: "desenhem o que quiserem, mas usem a página toda."
Eu desenhei. Primeiro uma árvore, com um tronco reto e uma copa redonda bem grande. Ao lado dela, outra árvore igualmente copada. Da copa da primeira saía uma guirlanda de flores que fazia uma curva até quase o chão e depois se elevava até à copa da segunda árvore. Olhei o desenho. Estava bonito, mas a página não estava completa. Havia um vazio no meio. Desenhei um gato (de costas) sobre a guirlanda. Olhei de novo: perfeito! O gato se balançava num balanço de flores.
A professora passou entre as carteiras, avaliando os desenhos e dando as notas. Quando chegou na minha carteira disse: "gatos não usam balanços". E me deu uma nota 5. Disfarcei o choro. Parei de desenhar. Meus amigos mais habilidosos passaram a fazer meus cadernos de desenho. Em troca, eu fazia as redações deles.
Adulta, conheci Jorginho num evento em São Paulo. Artista plástico. Maranhense, morando em Goiânia. Trocamos telefones e endereços. Ainda não estavámos na rede e o correio tradicional era eficiente.
Ele telefonou: "estou fazendo uma carta para você". Fazendo! Eu escrevia cartas.
Aquele dia resolvi desenhar uma carta. E refiz o desenho do primeiro ano. Enviei para o Jorginho, mas a legenda foi dedicada à professora:
"Prezada dona Diva,
talvez seus gatos não usem balanços, mas os meus tem mais imaginação que os seus.
Decidi transformar este blog em um memorial. Já estou para lá da metade da vida e acho que vale a pena escrever sobre coisas guardadas nos lugares privilegiados da memória.
Antes de tudo, quero agradecer a Deus pelo dom da vida; por fazer parte deste Universo criado tanto para amebas quanto para estrelas; por fazer parte da humanidade, uma espécie animal dotada de raciocínio, de sons articulados em forma de palavras, de pensamentos ordenados que permitem recordar o passado e projetar o futuro: espécie única, situada entre os animais e os anjos e, cujas mãos, tão pródigas em gestos, oscilam ainda entre o cacho de banana e as estrelas. Dia virá, em que as estrelas serão mais desejáveis que as bananas.
Nascida assim, do amor projetado pela Luz Divina, coube-me o privilégio de ser uma das filhas de seu Valentim e dona Maria Irene, um casal feito de generosidade. Foram os pais que eu precisava e aos quais agradeço cada minuto da convivência que tivemos.
Também agradeço aos irmãos que vieram compartilhar a vida comigo: Marilda, Mayda, Maria Célia, Neusa , Ângela , Sílvia, Adalgisa, Cláudio, Paulo e José Luís. Posso resumir o que penso deles, relembrando a fala do nosso pai quando nos reuníamos todos à mesa para o almoço: “que linda família eu tenho!”