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GAIA CIÊNCIA
Plutão foi cassado pela IAU:
pequeno demais
para ser planeta do Sistema.
Consternação no espaço sideral.
Júpiter, no entanto, avisa em voz serena:
- Vamos marcar uma conjuntura astral
para o próximo ano
e discutir a estatura moral
que define um "ser humano".
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 11h40
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Meu pensamento vaga solto
como a fumaça do incenso
soprada pelo vento.
À luz das velas
minha alma tonta
espia
a noite vazia.
Sírius ausente,
além do horizonte,
cintila como jóia preciosa
sobre águas desconhecidas.
Caminho entre sombras silenciosas.
Uma tristeza cálida
e doída
me invade:
saudade.
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 19h09
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Escrito por bruxa aprendiz às 20h54
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Exorcismo
Quero meter a mão
no balaio do "eu"
e arrancar uma a uma
as cascas emboloradas
da minha cebola/ser,
me desfazer
dos círios e profetas
das verdades dos filósofos,
da perfeição da mandala,
da magia
da poesia (casca suculenta, lenta...)
e do poeta;
quero atirar meu credo
na lata do lixo
e do amor (produto perecível)
fazer adubo orgânico;
despetalar a identidade humana
e, em seguida,
cuspir na rua,
pisotear a grama,
xingar a mãe do outro
e dar banana.
Cansei de ser certinha.
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 11h26
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MISS CENTOPÉIA
(para Iure)
Salvei Miss Centopéia
de um naufrágio, no último
dia primeiro de abril.
Enquanto se restabelecia
do acidente,
enrolada pra descanso,
revelou-me ser cliente
da Maison Formi Gannel,
que lhe desenha, com exclusividade,
calças-bermudas e saias-biquínis
conjugados num só modelo
- o que é muito prático,
pois é de temperamento versátil
e gosta de estar bem vestida
pra qualquer ocasião.
(No momento do naufrágio
usava short branco, saia justa verde
e discreta pantalona preta,
porque pretendia caminhar na orla,
e ir a uma festa
após o enterro da minhoca
que morreu dilacerada
pelo bico da galinha carijó.)
Falou que Formi Gannel
compõe, com elegância,
mangas curtas, longas,
alças, frentes-únicas
e túnicas transparentes
numa só peça
- chique à beça -
de caimento perfeito,
além de cinturas altas, baixas
ou só marcadas.
Deixei a centopéia descansando
sossegada e saí
encabulada com a pergunta
que me ocorreu em pensamento:
- quem lhe desenha os complementos?
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 21h26
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Não sei desenhar
Eu estava com 6 anos e fazia o primeiro ano do curso primário. Já sabia ler e escrever um pouco e aquele dia seria especial. Teríamos aula de desenho e eu ia usar a caixa de lápis de cor e o caderno sem pautas, próprio para desenho, com aquelas entrefolhas de papel de seda que eu tanto admirava.
Depois do recreio a professora distribuiu os cadernos encapados em vermelho com as etiquetas de identificação. Começava o ritual mágico. Em seguida ela proferiu as palavras que abriam o portal da imaginação: "desenhem o que quiserem, mas usem a página toda."
Eu desenhei. Primeiro uma árvore, com um tronco reto e uma copa redonda bem grande. Ao lado dela, outra árvore igualmente copada. Da copa da primeira saía uma guirlanda de flores que fazia uma curva até quase o chão e depois se elevava até à copa da segunda árvore. Olhei o desenho. Estava bonito, mas a página não estava completa. Havia um vazio no meio. Desenhei um gato (de costas) sobre a guirlanda. Olhei de novo: perfeito! O gato se balançava num balanço de flores.
A professora passou entre as carteiras, avaliando os desenhos e dando as notas. Quando chegou na minha carteira disse: "gatos não usam balanços". E me deu uma nota 5. Disfarcei o choro. Parei de desenhar. Meus amigos mais habilidosos passaram a fazer meus cadernos de desenho. Em troca, eu fazia as redações deles.
Adulta, conheci Jorginho num evento em São Paulo. Artista plástico. Maranhense, morando em Goiânia. Trocamos telefones e endereços. Ainda não estavámos na rede e o correio tradicional era eficiente.
Ele telefonou: "estou fazendo uma carta para você". Fazendo! Eu escrevia cartas.
Aquele dia resolvi desenhar uma carta. E refiz o desenho do primeiro ano. Enviei para o Jorginho, mas a legenda foi dedicada à professora:
"Prezada dona Diva,
talvez seus gatos não usem balanços, mas os meus tem mais imaginação que os seus.
Abraços,
Marisa"
Escrito por bruxa aprendiz às 20h14
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Marisa em janeiro de 2006.
Decidi transformar este blog em um memorial. Já estou para lá da metade da vida e acho que vale a pena escrever sobre coisas guardadas nos lugares privilegiados da memória.
Antes de tudo, quero agradecer a Deus pelo dom da vida; por fazer parte deste Universo criado tanto para amebas quanto para estrelas; por fazer parte da humanidade, uma espécie animal dotada de raciocínio, de sons articulados em forma de palavras, de pensamentos ordenados que permitem recordar o passado e projetar o futuro: espécie única, situada entre os animais e os anjos e, cujas mãos, tão pródigas em gestos, oscilam ainda entre o cacho de banana e as estrelas. Dia virá, em que as estrelas serão mais desejáveis que as bananas.
Nascida assim, do amor projetado pela Luz Divina, coube-me o privilégio de ser uma das filhas de seu Valentim e dona Maria Irene, um casal feito de generosidade. Foram os pais que eu precisava e aos quais agradeço cada minuto da convivência que tivemos.
Também agradeço aos irmãos que vieram compartilhar a vida comigo: Marilda, Mayda, Maria Célia, Neusa , Ângela , Sílvia, Adalgisa, Cláudio, Paulo e José Luís. Posso resumir o que penso deles, relembrando a fala do nosso pai quando nos reuníamos todos à mesa para o almoço: “que linda família eu tenho!”
Escrito por bruxa aprendiz às 11h32
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Cheiro de primavera:
o novo ovo gesta
a esperança de vôo.
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 11h50
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Por motivos estritamente pessoais deixarei de blogar por tempo indetermindado.

Escrito por bruxa aprendiz às 22h04
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COISAS DE CRIANÇA
No quadro negro o apagador
engoliu os sinais de giz na pedra.
Lágrimas furtivas:
pensava que as palavras eram eternas.
Marisa.
Escrito por bruxa aprendiz às 22h51
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Assim... assim...
vem uma uma leve tristeza...
sinto saudade de mim...
Marisa.
Escrito por bruxa aprendiz às 17h43
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Quero falar de poesia,
quero dizer bom dia,
jogar uma flor no ar,
vasculhar minha gaveta,
fazer malas, viajar...
Quero me olhar no espelho,
riscar com batom vermelho
rosto, pulsos e joelhos,
e ir pro mato guerrear;
Quero transpor fronteiras,
quero arriar bandeiras,
quero quebrar barreiras...
Quero chorar nas nascentes,
nas margens no sol poente
beber litros de beleza,
vestir o branco da pureza
e ir... sem ter que voltar...
Mas, onde começa o horizonte?
Numa esquina, numa ponte,
num amor que já morreu?
Já nem lembro dos espaços,
pois meus passos de compasso
giram a ciranda louca,
fazem círculos, traçam sulcos
e não saem do lugar.
Marisa.
Escrito por bruxa aprendiz às 12h24
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DE RERUM NATURA
Alheios ao destino dos mortais
além das nuvens claras e sombrias
vivem os deuses raros nas alturas
livres de enganos dores nostalgias
da morte vil que aos poucos nos invade;
da chuva de átomos em que se evade
indefinidamente a natureza
em sua eterna mas avara empresa
de reunir os átomos-enxame
seguindo a força rude do cliname,
compostos provisórios
que se desfazem noutros repertórios:
estrelas, águas nuvens, tempestades,
cristais, abelhas, glórias ou cidades,
e flores, pedras corpos, consciências
– figuram como pálida aparência ...
e acima desse mundo sempre em guerra
acima da miragem dessa terra
repousam esquecidos nos meatos
mais livres os celestes, mais beatos
[ Marco Lucchesi in: Poemas reunidos]
Escrito por bruxa aprendiz às 11h03
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FIM DE JOGO
Sem conhecer as regras do jogo,
arrisquei.
Perdi a partida.
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 13h46
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De outro ângulo
Mirei de outro ângulo
e me vi obtusa
e banal.
A musa
(celestial)
me observa, confusa.
Marisa
Escrito por bruxa aprendiz às 22h29
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